O TESTE DO NABY 

Atualizado: 7 de jun.





O TESTE DO NABY

 A. A. de Assis


O saudoso médico e político Naby Zacarias, assíduo frequentador da antiga “Boca Maldita”, falava ali certa vez sobre um teste que costumava aplicar em amigos seus que sonhavam candidatar-se a cargos eletivos. A experiência consistia em levar o candidato a candidato a algum lugar onde houvesse alguma grande concentração de pessoas, a fim de medir o prestígio do cidadão.


     Dias antes ele havia levado um amigo ao “Bailão do Atlântico” para submetê-lo ao tal teste. Ficaram os dois de pé, próximos à porta principal. As pessoas iam entrando e quase todas cumprimentavam o Naby, trocando com ele amistosas palavras e abraços. Ninguém cumprimentava o distinto ao lado.


     – Está vendo? – perguntou o médico – está vendo o que significa popularidade? Essa gente toda me conhece, sabe o meu nome, brinca comigo, muitos já foram ou são meus pacientes... Pois com essa popularidade toda eu não consegui me eleger deputado estadual. Imagine você, que não tem a mínima intimidade com o eleitorado... Quantos votos espera ter?


     Pelo menos uns dez candidatos se descandidataram após passar pelo bem-bolado teste do Naby. O fulano se convencia de que voto que pesa nas urnas é o das pessoas simples; verificava que nessa área não teria futuro; fazia as contas; mudava logo de planos... Porque uma coisa é ser conhecido nas chamadas altas rodas, outra muito diferente é ser alguém capaz de misturar-se de alma e corpo com a moçada que realmente decide.


     Há muita gente bem preparada que poderia estar exercendo cargos públicos com grande eficiência. Contudo, se o cargo depende de eleição, não basta ser bom sujeito, inteligente, competente e tal e tal: é preciso ter o dom de entrar sem chave no coração do povo, e isso é coisa que o sujeito tem ou não tem; não adianta forçar.


     Trata-se de algo muito especial. E não é nem necessário ter nascido em berço pobre ou morar na periferia. Getúlio Vargas, Juscelino Kubistcheck, Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Adhemar de Barros, nenhum deles foi criado na favela; no entanto alcançaram níveis altíssimos de popularidade.


     A questão é que nasceram com um carisma forte, aliado ao dom da comunicação. Sabiam abraçar e entender os mais humildes. De um jeito ou de outro criaram a imagem de advogados do povo, defensores dos pequenos, voz dos sem-voz. Esse tipo de coisa é que de fato conta.


     Gente assim todo mundo conhece. Por isso o bom Naby, tão filósofo, sociólogo, psicólogo quão doutor cardiologista, ficava preocupado quando um amigo dele, sem suficiente popularidade, sonhava candidatar-se a alguma coisa. Levava o amigo ao “Bailão” para o teste infalível. Dessa forma evitou que muito sonhador gastasse tempo e dinheiro em aventuras eleitorais provavelmente decepcionantes.



(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 23-9-2021)

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