Lições do Mestre Renato Alves

Atualizado: 30 de nov. de 2021


COMENTANDO TROVAS (Por Renato Alves) Nº - 01 Veja como uma trova bem feita, num espaço exíguo de apenas quatro versos, ou 28 sílabas métricas, pode nos transmitir um clima perfeito de aconchego e intimidade, pleno de lirismo poético: Eu me rendo, abaixo o tom, te abraço e logo me apego... Tranco a porta, ligo o som, fecho a cortina e me entrego Ailto Rodrigues Nº - 02 A trova lírica, ordinariamente, aborda uma temática leve e sutil, mas, às vezes, também pode enveredar pelo terreno das trágicas paixões que assolam a alma humana. Veja como a trova ao lado nos transmite um impacto emocional de empatia com a personagem do anão de circo. Achado morto em seu leito, o anão do circo da esquina apertava contra o peito a foto da bailarina... Waldir Neves COMENTANDO TROVAS (Por Renato Alves) – 28.04.2020

Nº - 03 Uma das características da poesia simbolista é a sugestão, isto é, o poeta não apresenta diretamente o assunto, mas sugere, apela para algo que lembre aquilo que ele quer dizer. Às vezes, percebo na beleza de algumas trovas, este efeito do Simbolismo literário: a insinuação do assunto através de uma situação, de um objeto, de uma imagem... Na trova ao lado, a lembrança do pai vem pela evocação de uma peça do vestuário. De meu pai, em mim gravada, guardo a imagem, rotineira, de uma camisa suada sobre as costas da cadeira... Edmar Japiassú Maia

Nº - 04 Já reparou que as pessoas dinâmicas, as que estão em permanente atividade, são as que mais recebem críticas? Sempre há um “engenheiro de obra feita” a condenar os erros de quem está produzindo. Pois bem, veja como este as-pecto da conduta humana foi brilhantemente captado na Trova ao lado. Quem não faz, risco não corre Erro... engano... quem, não falha? Só pode errar quem socorre, age, executa, trabalha! Maria Thereza Cavalheiro COMENTANDO TROVAS (Por Renato Alves) – 29.04.2020 Nº - 05 Diz o dito popular: "Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe!" – Esta sucessão de momentos bons e momentos maus, quase sempre efêmeros, ocorrem durante toda a nossa vida. Na trova ao lado, o autor criou uma linda metáfora para dizer esta verdade. Ao longo da caminhada em que a vida nos conduz, vão-se alternando, na estrada, luz e treva... treva e luz... Waldir Neves Nº - 06 Na trova humorística, a figura da sogra costuma ser um prato cheio dos trovadores para nos fazer rir, ela sempre foi alvo de impiedosa gozação. No entanto, na primorosa trova ao lado, foi a SOGRA quem levou a melhor... A minha sogra me deu um troféu e uma medalha... E, no diploma, escreveu: “VENCEDOR – TEMA: CANALHA” Sérgio Ferreira da Silva COMENTANDO TROVAS (Por Renato Alves) – 30.04.2020 Nº - 07 Na poesia, expressivos efeitos sensoriais podem ser obtidos pelo hábil manejo das palavras e da pontuação. Reparem na bela trova ao lado como a repetição da locução verbal “VOU + GERÚNDIO”, alternada com PAUSAS DEFINIDAS (...) nos passa a sensação do tranquilo fluxo do tempo! Eu vou indo... vou levando... assim como a vida deixa... vou sonhando... vou rimando... seguindo a vida... sem queixa!... Carolina Ramos Nº - 08 Nesta bela trova de Zaé Júnior, o “bonde” pode ser a representação metafórica da própria vida, de onde, um dia, todos nós desembarcaremos. Reparem também que, no 3ºv., há um caso de silepse de pessoa, ou seja, a concordância verbal (seguimos) é feita com a ideia do sujeito (=nós) e não com as palavras (a mãe e os filhos = eles). O bonde rangeu nos trilhos, meu pai desceu, não sei onde... Seguimos, a mãe e os filhos, sozinhos no mesmo bonde! Zaé Junior M A I O / 2 0 2 0 *COMENTANDO TROVAS (Por Renato Alves) – 01.05.2020* Nº - 09 Às vezes, algumas trovas mostram curiosas peculiaridades na linguagem em que estão vazadas. Reparem nesta bela trova de Domingos F. Cardoso, de Ílhavo, Portugal, vencedora em Maringá, que o autor faz uma abordagem minuciosa do tema ”ROÇA”, usando apenas substantivos. Roça: mata, fogo, chão, força, braço, homem, dor; plantas, flores, frutos, pão, terra, vida, infância, amor!!! Domingos F. Cardoso Nº - 10 No poema “A um poeta”, Bilac diz que escrever é uma tarefa exaustiva, mas, terminada a obra, o trabalho que ela deu para ficar pronta não deve ser percebido pelo leitor. Ideia semelhante também está contida nos famosos versos de Adelmar Tavares: “Tão fácil, depois de feita, / tão difícil de fazer!” Vejam, agora, na trova ao lado, que é certamente a este grande esforço de criação que se refere a expressão “dura prova” usada no 3º verso. Ao ler uma bela trova depois que pronta ficou, quem calcula a dura prova por que o poeta passou? J.G. de Araújo Jorge *COMENTANDO TROVAS (Por Renato Alves) – 02.05.2020* Nº-11 O PERDÃO é um ato humano tão nobre e poderoso que fortalece mais o coração de quem perdoa do que o de quem é perdoado. Quem pratica o perdão capacita-se a continuar perdoando mais ainda e, assim, aprimora-se espiritualmente numa espécie de círculo virtuoso. Veja como, na trova ao lado, o autor conseguiu sintetizar esta ideia, usando, com muito equilíbrio, três pares de palavras básicas: perdão-luz, ilumina-eleva, eleva-perdoa. O perdão é luz na treva do coração da pessoa. Quem se ilumina se eleva e quem se eleva, perdoa. Alfredo de Castro *COMENTANDO TROVAS (Por Renato Alves) – 03.05.2020*

Nº - 12 A leitura de uma trova lírica nos leva, de imediato, a um sentimento amoroso; se for filosófica, a uma reflexão; se for humorística, nos faz rir... Porém, a trova ao lado nos leva primeiramente, à visualização de uma imagem concreta de grande beleza plástica, para, em seguida, nos remeter à profundidade afetiva que encerra este gostoso abraço... Meus netos têm me passado, com seu abraço, a ilusão que sou um coqueiro enfeitado de orquídeas em floração. Wandira Fagundes Queiroz *COMENTANDO TROVAS (Por Renato Alves) – 04.05.2020*

Nº - 13 Provando que “trova também é cultura”, algumas composições apresentam achados que exigem um certo conhecimento especializado para serem apreciadas em sua plenitude. Por exemplo: a Mineralogia ensina que o diamante é um estágio avançado do carbono que passou por várias transformações. Ou seja: ele é um mineral que brilha muito, mas, um dia, já foi um negro carvão opaco. Observemos na trova ao lado como o trovador usou este fato científico para criar uma bela imagem poética sobre o perdão. Se o erro ficou distante seja pleno o teu perdão: Não se cobra ao diamante seu passado de carvão! Pedro Ornellas *COMENTANDO TROVAS (Por Renato Alves) – 05.05.2020* Nº - 14 Quase sempre a repetição de uma mesma palavra num trecho curto de nossos textos constitui um vício de linguagem, um defeito no estilo, e deve ser evitado. No entanto, em alguns casos, a repetição não constitui um erro ou defeito, e sim uma poderosa figura de linguagem - a REITERAÇÃO - que pode valorizar muito o nosso texto. Veja como o uso deste recurso estilístico foi fundamental para reforçar o efeito humorístico do achado nas trovas ao lado: – Nunca vi almas! – diz rindo... E o cara na sua frente, Foi sumindo, foi sumindo, Transparente, transparente... Vasques Filho Ao pôr-lhe a esmola no prato pergunta ao surdo, baixinho: – És mesmo surdo de fato? E ele:”Surdinho, surdinho!” José Maria M. de Araújo

Obs: 1. Com referência ao “Comentando nº-12” de 03.05.2020 comunico que já fiz a edição da trova inicial com uma nova redação gentilmente enviada pela autora, permanecendo válido o comentário feito, uma vez que ele que se refere ao CONTEÚDO, ao ACHADO da trova. 2. Gostaria de pedir que, nesta coluna, não fossem feitas considerações sobre questões relacionadas à MÉTRICA ou RIMA, pois isto, seria um DESVIO de FINALIDADE. Para isto, Informo que há uma página na internet chamada “MOINHOS DE VENTO”, onde este assunto pode ser discutido com a paixão que costuma despertar nos sempre atentos vigilantes da trova “correta”. *COMENTANDO TROVAS (Por Renato Alves) – 06.05.2020* Nº - 15 O conhecidíssimo soneto lírico de Camões “O amor é fogo que arde e não se vê...” é quase todo todo construído com base em antíteses (isto é, ideias que se opõem), justamente para mostrar a natureza contraditória do Amor tal como descrito no poema. Nesta mesma linha camoniana, Maria Thereza Cavalheiro criou, para o mesmo tema, uma bela trova utilizando também esta figura de linguagem, a ANTÍTESE, em todos os quatro versos. O amor é sorriso... ou pranto. O amor é nuvem... ou sol. O amor é lágrima... ou canto. O amor é treva... ou farol. Maria Thereza Cavalheiro *COMENTANDO TROVAS (Por Renato Alves) – 07.05.2020* Nº - 16 É conhecida a preferência dos poetas pela temática das estrelas. Olavo Bilac as ouvia e conversava com elas, lembrando que é preciso “amar para entendê-las”... Alguns simplesmente expõem sua admiração por elas, outros as veem como instrumento de reflexão filosófica, outros as colocam dentre as mais sublimes criações de Deus, e outros ainda as comparam ao produto do seu fazer poético. Finalmente, há quem as colha, às mãos cheias, no seu viver cotidiano... Quanto à forma, a palavra “estrela” também proporciona ao poeta a possibilidade de uma rima rica de muito sonoridade, como nos mostram as trovas abaixo: Contemplo o céu para vê-las com um respeito profundo, pois na raiz das estrelas, eu vejo o dono do mundo! (Rodolpho Abbud) Ó Deus, que nos deste a flor, e as crianças e as estrelas, dá-nos agora, Senhor, a graça de merecê-las! (A.A.Assis) Tão pequenina, parece humilde, distante estrela, porém, como a Trova cresce quando alguém sabe entendê-la. (Luiz Otávio) Minhas mãos... venho trazê-las, até parecem vazias, mas são repletas de estrelas que eu colho todos os dias... (Elisabeth Souza Cruz)


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